Porque há o direito à leitura, então eu leio.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Adaptação d'Os Lusíadas para a Literatura de Cordel



Canto VIII d'Os Lusíadas 

Numa tarde ensolarada
Vai chegando o catual
Barba branca, longa e penteada
Pra ouvir sobre um moi de bandeira
Que vem lá de Portugal

O Catual interessado
Perguntou a Paulo da Gama
Que caba era aquele
E como é que ele se chama

Paulo respondeu
Sempre muito educado
Aquele se chama Ulisses
Filho do Famoso Baco

Ainda depois da resposta
O homem tava incucado
Que ramo verde tirso era aquele?
Tinha sido por seu pai usado

Repare nesse outro homi danado
Ulisses é seu nome
É protegido pela Deusa
E a brabeza o consome

Mas se em Troia ele pecou
Logo conseguiu Redenção
Por moidi fundar a querida Lisboa
E que bela criação

E quem será estoutro cá
Que o campo abrasa com tantos mortos?
Ah, o seu nome é Viriato
E matar está nos seus votos

Foi pastor de gado
E em Roma o aclamaram
Mas cum artimanha vergonhosa
A vida lhe tiraram


Vês também as bandeiras das aves de Júpiter
Com tantas artes enganosas
Sorrateiras artimanhas
E ideias venenosas

Maneiras tão fingidas
E a cerva que o avisa
Ele é Sertório
E a corça profética a sua divisa

Olha estoutra bandeira
E vê pintado o arretado Grão Progenitor
Se chama Conde D. Henrique
Que faz e desfaz favor

Os portugueses diziam que ele era húngaro
Que é até fácil de entender, sem problema
Mas os estrangeiros dizem que ele tinha nascido em
 lugar que tem nome de moça bonita Lorena


“Quem é, me dize, esse outro que me espanta”
Perguntou o Malabar maravilhado
Homi, com esse é melhor nem mexer
Por moidi ser um caba brabo

Este é o primeiro Afonso
Que todo Portugal aos mouros toma
Este é aquele zeloso, a quem Deus ama
Com cujo braço o mouro inimigo doma

Já esse aqui do lado
Em tudo mete o bedelho
Se chama Egas Moniz
Para leais vassalos claro espelho

Olha aqui mais um, Fuas Roupinho
Que no mar e na terra resplandece
Com tão justa e santa guerra
Sua felicidade se enaltece


Mai um sorriso tão da mulesta
A alegria vai na alma
Triunfando, nos céus,
Com justa palma

Gama continua a citar os cabas
Don Tenório que foi cercado
Henrique de Bom o milagreiro
Mem Moniz o exaltado

Tem até Giraldo sem pavor
Que na guerra era o terror
A cabeça dos caba arrancava
E com elas desfilava

Oia um cavaleiro arretado
É aquele Martim lopes
Que leva palma e louro
Pra deixar um camboi morto
Já aquele é Dom Mateus
Que em Lisboa era bispo
No coração leva Deus
E na espada a disgraça
Pra matar o inimigo

Estranho um bispo guerreiro
Mas o bicho era arretado
Matou um monte de reis
Com seu braço “consagrado”

Já aquele outro caba
D. Paio Correia de Castela
Uma espada não lhe furava
Pois era virado na mulésta

Ribeiro, Anes e Martins
Outrosomis muito arretado
Na França e Espanha lutaram
E pela luso deixaram
Um moi de troféu espalhado
Até nos jogos de beloma
Os três onda tirava
E quando desafiado
Gonçalo Ribeiro arrasava

A fim de babar o Deus cristão
Gama cita Nuno alvares
Que de Portugal era capitão
E arrochava nos embates

Pêro rodrigues, Gil Fernandes e Rui Pereira
Nobres guerreiros de Portugal
Todos louvados e postos na bandeira
Por defender sua galera
De quem os queria mal

17 portugueses contra 400 castelhanos
Uma peleja desigual
300 portugueses contra mil romanos
Tudo encarava o povo de Portugal
Muitos são os guerreiros
da galera portuguesa
que topavam qualquer parada
e lutavam com muita destreza

Paulo da Gama insistente
Continua a expricar
Sobre as bandeiras portuguesas
Para as ideias clarear

Em Portugal os reis ingratos
Transtornados pela alta fama
Mancharam a linhagem antiga
Segundo o Da Gama

O sol já se escondia
Pois sua hora já chegou
depois de altos closes
na noite o Catual desembarcou

Na quimera noturna
os Arúspices relaxaram
E em visões e sacrifícios
O diabo incomodaram

Baco em fantasias se traveste
E em sonhos aparece
Fazendo a linha Maomé
Interfere nos planos do caba da peste

Acordando assustados
Os arúspices se inquietaram
Correndo apressados
Assim exclamaram:

Não faça acordo com portugueses
Que confiáveis eles não são
Destruir nossas terras, roubar nossas riquezas
E escravizar o povo de Calicute irão


Alertados do perigo
Em prontidão então ficaram
Riquezas, terras e ofícios
Os sacerdotes ao Catual mostraram


Faça a cabeça do Samorim
Para os portugueses não vir
Eles querem lascar nossas terras
E nós temos que impedir
E se tu conseguir
Esses tesouros são pra ti

A milícia já formada
Contra Gama tramava
Verdade ou mentira? Não se sabia
E era aquela agonia

O Samorim abestalhado
 se deixou ser envenenado
Contra Paulo da Gama, o coitado,
Que acabou preso e lascado
Após violenta discussão
Gama tem que se explicar
Para o Samorim abusado
Que estava a lhe interrogar

Paulo da Gama com sua lábia
Amoleceu o Samorim
Que com pena do pobre homem
Jurou proteção até o fim

Vendo que sua presepada não funcionou
O catual pensou: vou bolar um plano B
E agora, dessa vez,
Esse abestalhado vai ver


Gama esperto e perspicaz
Se ligou na fuleragem
Tratou logo de cabuetar
A tremenda sacanagem
O catual mais esperto
Já sabia o que fazer
Chantageou Paulo da gama:
Ou os bens ou vou lhe prender

Ele ainda falou assim:
Pra nau você não volta
Divide logo os teus bens
Ou prepara a tua cova

Paulo tenta resistir
Mas o Catual pouco se importa
O que o rei não puder ver
Jamais poderá mudar a rota

O governador resistente logo falou:
Você pode ter a licença do rei
Mas as almadias que você precisa
Certamente eu já tomei


Gama toma consciência
E começa a refletir
Se eu não der o que esse bicho quer
Nunca poderei partir

Ele agora detido, pensou:
Como é que vou sair daqui?
Quando o homi tá preso
Se dana logo a refletir

Paulo então começou a matutar:
Melhor entregar o que me pedem
Que colocar as naus em risco
Mas só de pensar nisso ficou logo arisco

No dia seguinte,
Resolveu se render
Dividiu parte dos seus bens
Para no xilindró não se meter
Trocada a sua liberdade por tecido
Ele que não estava ferido
Começou a matutar
Sobre a grande confusão que o dinheiro pode causar

O tal do poder é mesmo danado
Quando tem dinheiro no meio
Vira vilão até o pobre coitado

Dito isso, vá simbora pro próximo canto
Para entender mais a história lusitana
Na visão de um caba que não é nenhum santo




Cordelistas:

Brunna Dias

Eloiza Silva

Grazziella Mendonça

Nailson Monteiro

Rodrigo Paz

Share:

terça-feira, 24 de julho de 2018

As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental - por Eduardo H.

Relacionado principalmente a uma cultura machista e sexista, o culto à forma é uma expressão capitalista de como os corpos, principalmente os femininos, devem se dispor na sociedade. Com a construção de moldes impostos ditatorialmente, essa prática, muitas vezes invisível, procura dizer como deve ser seu cabelo, a forma do seu quadril, a finura do seu nariz e até a cor da sua pele. Além disso, camuflados nessa já invisível imposição, estão as doenças, físicas e psicológicas, estas que te arrastam para um poço que não tem fundo, no qual a sua única vontade será ser igual ao que a mídia quer.

Antes de tudo, é preciso apontar como a inspiração para esse texto surgiu. Hoje, 04.03.2017, parei para assistir o programa Esquadrão da Moda, no SBT, confesso que achava que já tinha acabado, uma vez que lembro de ter assistido um ou dois episódios em sua época de estréia, alguns anos atrás. Talvez naquela época eu não visse o que eu vi hoje, ou o meu discurso era condizente com o que era ali passado. Entretanto, o resultado de hoje: não consegui terminar de assistir. Na verdade, não vi mais que 10 minutos. O motivo: eu não vejo necessidade em humilhar uma pessoa pelo seu jeito de ser.

Agora, retornando, é importante ressaltar que a padronização corporal não é algo novo. Desde Cleópatra e suas concepções estéticas, o espelho de como as mulheres deveriam ser e se comportar já existia. Hoje, essa imposição acontece de maneiras ora sutis, como no uso de apenas um estereótipo de corpo para propagandas e novelas, ora escancaradas, quando se diz, em rede nacional, que o seu estilo de vida não presta. O problema está aí. Por que não presta? Quem te disse que para que eu seja feliz, é necessário ler a Vogue, usar Versace, Calvin Klein, etc? Por que, na era das individualidades, eu não posso expressar-me da maneira que eu bem entender? 

(rascunho parado por mais de um ano)

Voltando a escrever esse texto em 2018, preciso ressaltar um caso que chocou-me de maneira veemente. A atriz e cantora Selena Gomez, que enfrenta uma doença auto-imune nominada Lupus, foi alvo de críticas de grandes nomes da moda, como Stefanno Versace, o qual a chamou de "feia". É extremamente doloroso para alguém que tenha o mínimo de empatia, ouvir qual alguém chamou uma mulher, num estado delicadíssimo de sua vida, de feia, apenas por antipatia, ou por não ser aquilo com o que ele está acostumado a lidar (ou sabe-se Deus por quê). 

As premiações de Miss por todo o globo demostram a necessidade de temos de padronizar algo. Explico: é mais fácil vender algo para um único tipo de pessoa, ou criar vários tipos de produto. Se nos esforçarmos um pouco, percebemos: mão de obra, matéria prima, deslocamento, criação, marketing etc, têm muito menos custo quando se vende para um único padrão. É simples: quanto mais nos esforçamos para nos adequarmos a um padrão, consumimos mais produtos e serviços para, no fim, comprarmos um produto caro, mas que custou barato para os grandes oligopólios.

A simbologia por trás do movimento midiático de padronização corporal atinge, inclusive, as tendências médicas, tendo em vista que, em muitas páginas do Instagram que tratam de nutrição e estética, o padrão fitness é amplamente difundido e solidificado, e esquece, por conseguinte, dos inúmeros desafios que manter uma vida principalmente saudável requer. Agora imagine quando se trata de um estilo de vida, horários regrados para comer, modos de se vestir, grifes próprias, complementos alimentares caríssimos. Um dia você acorda, e, ao olhar a cintura que mede micrômetros, o percentual de gordura corporal negativo, e as gotas de suor que escorrem como gotas de pura felicidade, não lhe resta nenhuma outra alternativa a não ser odiar a si mesmo.

É importante salientar, ainda, os viéses racistas e gordofóbicos das grandes marcas. Para isso, podemos recorrer a um conceito muito bem quisto na atualidade, que é o de Representatividade. Esse assunto é extremamente cotidiano, e vai de encontro à ideia de que pessoas que diferem de um arquétipo europeu também existem. Os modelos plus-sizes, os quais, no máximo, chegam ao 42, mostram algo desse meio que diz: você pode ser gordo(a), mas não tanto. A falta de negros(as) nos marketings deixa implícito: você pode ser negro, mas não tanto. E se for negro e gordo? "Bem, você não se adequa à realidade do mundo..." Em suma, mostrar que essas pessoas existem é dizer: eu não preciso ser de tal arquétipo (o europeu) para ser alguém, nem para ser feliz. 

Por fim, deixo para reflexão ( e deleite) um trecho e o link para o texto Receita de Mulher, de Vinícius de Moraes:

"[...]
Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo.
[...]"

Share:

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Aqueles dois - Caio Fernando Abreu

Aqueles dois
(História de aparente mediocridade e repressão)

Caio Fernando Abreu

A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia, La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutilllegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.
Share:

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

"E o meu erro foi querer estar ao seu lado"



Por que você insiste em permanecer na minha cabeça? Queria apenas poder te esquecer e esta dor idem. Contudo, não vai, não passa, continua atormentando-me, esgotando os últimos resquícios de sanidade existentes em mim. Estou cansado. Minhas lágrimas, copiosamente, caem motivadas pelo sentimento ambíguo que deixastes. Estimo que um "não" teria causado menos estrago. Hoje, pensando nas vezes que não dormir olhando suas fotos para matar a saudade e só naquele minuto poder te observar em silêncio, e nesse momento o meu lençol e travesseiro eram os meus aconchegos, percebo que nunca serei feliz. Não ser feliz já foi condicionado a mim. Aceitei. Melhor seria se, estou acreditando nisto, não tivesse acontecido aquela noite, pois, em seguida, seus toques, falas e até teus olhos escuros não saem da minha cabeça. Ridículo fui eu - eu sei - em ter cogitado a possibilidade de existir algo, somos muitos diferentes, divergentes, incoerentes. Você tem suas peculiaridades e boa parte delas conquistaram-me, principalmente a capacidade de fazer, mesmo de maneira idiota, as pessoas de sentirem bem. Inclusive, a mim. Certamente, meus maiores erros foram ter nutrido algo alcunhado de lúdico, de não perceber a inverdade por trás das palavras ludibriadoras utilizadas por ti. Agora, estou um poço de tristeza e não consigo deixar de amá-la. Sinto que se eu prosseguir nessa direção não sobrará nada de mim. Isso já é corroborado pelo meu reflexo cujo faz questão de arrancar a expressividade da dor dos meus olhos. Ouvi de uma amiga que "não adianta insistir no erro", concordo plenamente, mas deixarei claro: o "erro" não é você, somos nós. Por isso, prefiro não errar, vai doer mais do que já estar, porém será extremamente necessário. Apenas não posso permanecer em frente com minha destruição.

Thomason Carvalho
Share:

Mineirinho - conto de Clarice Lispector



É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo pro­curar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irre­dutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perple­xidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.

Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.

Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.

Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.

Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estre­meça.

A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.

A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, espe­rando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.

E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta tran­cada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.

Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que esta­mos todos certos e que nada há a fazer.

Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido com­preendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.

Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.

Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.



Share:

Popular Posts

Copyright © Vernaculando | Powered by Blogger

Design by ThemePacific | Blogger Theme by NewBloggerThemes.com | Distributed By Blogger Templates20