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terça-feira, 24 de julho de 2018

As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental - por Eduardo H.

Relacionado principalmente a uma cultura machista e sexista, o culto à forma é uma expressão capitalista de como os corpos, principalmente os femininos, devem se dispor na sociedade. Com a construção de moldes impostos ditatorialmente, essa prática, muitas vezes invisível, procura dizer como deve ser seu cabelo, a forma do seu quadril, a finura do seu nariz e até a cor da sua pele. Além disso, camuflados nessa já invisível imposição, estão as doenças, físicas e psicológicas, estas que te arrastam para um poço que não tem fundo, no qual a sua única vontade será ser igual ao que a mídia quer.

Antes de tudo, é preciso apontar como a inspiração para esse texto surgiu. Hoje, 04.03.2017, parei para assistir o programa Esquadrão da Moda, no SBT, confesso que achava que já tinha acabado, uma vez que lembro de ter assistido um ou dois episódios em sua época de estréia, alguns anos atrás. Talvez naquela época eu não visse o que eu vi hoje, ou o meu discurso era condizente com o que era ali passado. Entretanto, o resultado de hoje: não consegui terminar de assistir. Na verdade, não vi mais que 10 minutos. O motivo: eu não vejo necessidade em humilhar uma pessoa pelo seu jeito de ser.

Agora, retornando, é importante ressaltar que a padronização corporal não é algo novo. Desde Cleópatra e suas concepções estéticas, o espelho de como as mulheres deveriam ser e se comportar já existia. Hoje, essa imposição acontece de maneiras ora sutis, como no uso de apenas um estereótipo de corpo para propagandas e novelas, ora escancaradas, quando se diz, em rede nacional, que o seu estilo de vida não presta. O problema está aí. Por que não presta? Quem te disse que para que eu seja feliz, é necessário ler a Vogue, usar Versace, Calvin Klein, etc? Por que, na era das individualidades, eu não posso expressar-me da maneira que eu bem entender? 

(rascunho parado por mais de um ano)

Voltando a escrever esse texto em 2018, preciso ressaltar um caso que chocou-me de maneira veemente. A atriz e cantora Selena Gomez, que enfrenta uma doença auto-imune nominada Lupus, foi alvo de críticas de grandes nomes da moda, como Stefanno Versace, o qual a chamou de "feia". É extremamente doloroso para alguém que tenha o mínimo de empatia, ouvir qual alguém chamou uma mulher, num estado delicadíssimo de sua vida, de feia, apenas por antipatia, ou por não ser aquilo com o que ele está acostumado a lidar (ou sabe-se Deus por quê). 

As premiações de Miss por todo o globo demostram a necessidade de temos de padronizar algo. Explico: é mais fácil vender algo para um único tipo de pessoa, ou criar vários tipos de produto. Se nos esforçarmos um pouco, percebemos: mão de obra, matéria prima, deslocamento, criação, marketing etc, têm muito menos custo quando se vende para um único padrão. É simples: quanto mais nos esforçamos para nos adequarmos a um padrão, consumimos mais produtos e serviços para, no fim, comprarmos um produto caro, mas que custou barato para os grandes oligopólios.

A simbologia por trás do movimento midiático de padronização corporal atinge, inclusive, as tendências médicas, tendo em vista que, em muitas páginas do Instagram que tratam de nutrição e estética, o padrão fitness é amplamente difundido e solidificado, e esquece, por conseguinte, dos inúmeros desafios que manter uma vida principalmente saudável requer. Agora imagine quando se trata de um estilo de vida, horários regrados para comer, modos de se vestir, grifes próprias, complementos alimentares caríssimos. Um dia você acorda, e, ao olhar a cintura que mede micrômetros, o percentual de gordura corporal negativo, e as gotas de suor que escorrem como gotas de pura felicidade, não lhe resta nenhuma outra alternativa a não ser odiar a si mesmo.

É importante salientar, ainda, os viéses racistas e gordofóbicos das grandes marcas. Para isso, podemos recorrer a um conceito muito bem quisto na atualidade, que é o de Representatividade. Esse assunto é extremamente cotidiano, e vai de encontro à ideia de que pessoas que diferem de um arquétipo europeu também existem. Os modelos plus-sizes, os quais, no máximo, chegam ao 42, mostram algo desse meio que diz: você pode ser gordo(a), mas não tanto. A falta de negros(as) nos marketings deixa implícito: você pode ser negro, mas não tanto. E se for negro e gordo? "Bem, você não se adequa à realidade do mundo..." Em suma, mostrar que essas pessoas existem é dizer: eu não preciso ser de tal arquétipo (o europeu) para ser alguém, nem para ser feliz. 

Por fim, deixo para reflexão ( e deleite) um trecho e o link para o texto Receita de Mulher, de Vinícius de Moraes:

"[...]
Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo.
[...]"

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